Olha pro lado. Conta as pessoas na sala. Fecha os olhos. Respira fundo. Sente a adrenalina correndo no corpo. Assiste os pensamentos lutando entre si. Sente o conforto da camisa de algodão, da calça jeans. Sente cada veia do corpo pulsar. O metal frio da mesa contra a perna. A dureza da madeira da cadeira. Sente a maciez da folha da prova. Ouve o barulho do relógio. Se concentra nos passos da aplicadora. Na respiração da menina da frente. Sente o lápis apertado contra os nós dos dedos. Sente a brisa vinda da janela. Ouve os pingos da chuva contra o concreto. Ouve o barulho do lápis cortando o papel. Sente a textura da borracha. Bate os calcanhares no chão, sente o impacto leve. Sente o joelho vibrar com o movimento. Passa a mão na nuca. Aperta. Se concentra na pressão que os dedos fazem. Passa os dedos entre os cabelos. Desembaraça os fios. Se concentra na cor do cartão de resposta. Na cor produzida pela caneta no mesmo. Tão vermelho, tão preta. Ouve passos no corredor Tão leves. Sente o suor nas coxas. Tão quente. De novo o cartão, sente o cheiro da tinta. Tão amargo. Colore a última resposta. A prova simplesmente passou. Nesse momento, o cheiro do som produzido pelo gosto da vitória substitui cada miligrama de adrenalina por um veneno mais forte.